quarta-feira, 30 de junho de 2010

Música - Plegaria a un labrador

Victor Jara foi assassinado em 1973 no Estádio Nacional do Chile pela ditadura chilena, depois de ter as duas mãos quebradas. Porque cantava as agruras do seu povo, como na canção abaixo, Oração a um lavrador. O vídeo foi baixado do Youtube.

Levántate y mira la montaña
de donde viene el viento, el sol y el agua,
tú que manejas el curso de los ríos
tú que sembraste el vuelo de tu alma.

Levántate y mírate las manos
para crecer estréchala a tu hermano,
juntos iremos unidos en la sangre
hoy es el tiempo que puede ser mañana.

Libranos de aquel que nos domina en la miseria
traenos tu reino de justicia e igualdad.
Sopla como el viento la flor de la quebrada
limpia como el fuego el cañón de tu fusil,
hágase por fin tu libertad aquí en la tierra
danos tu fuerza y tu valor al combatir,
Sopla como el viento la flor de la quebrada
limpia como el fuego el cañón de tu fusil.

Levántate y mírate las manos
para crecer estréchala a tu hermano,
juntos iremos unidos en la sangre
ahora y en la hora de nuestra muerte
amén a - a - mén, a - a - mén.


terça-feira, 29 de junho de 2010

Crônica - A voz do outro lado

Desconfio que os recrutadores escolhiam aquelas profissional não somente pela fluência verbal, mas também pela voz. Trabalhavam normalmente em uma salinha fechada. Ninguém de outro setor tinha acesso ao recinto profissional delas. Na entrada ou na saída do expediente, elas geravam comentários:

- Aquela é a moça da voz macia. Olha ela ali, registrando o cartão de ponto.

- Nossa, eu pensei que ela fosse gorda e de mais idade. É uma menina...

As telefonistas de antigamente eram, sim, uma incógnita. Fala pausada, pronúncia correta, um jeito de sempre estar em dia com a paz. Enfrentavam com calma as ligações de clientes e colegas da própria empresa enfurecidos por qualquer motivo e dispostos a descontar a raiva no primeiro que atendesse o telefone. E não usavam gerúndio, do tipo:

- Senhor, vou estar transferindo a sua ligação para o setor competente e o senhor estará sendo atendido imediatamente.

Olha só, elas não usavam gerúndio como fazem hoje em dia alguns profissionais de telemarketing. Isso já era dez, então imagina o resto.

Mantinha-se uma espécie de manto sobre essas profissionais. A solicitude às vezes arrancava ironias de mau gosto de algumas colegas mulheres:

- Imagina, se ela fala assim com todo homem não se sabe o que acontece dentro daquela sala.

Maldade da grossa. Era educação, era cultura, era formação. Na verdade, naqueles tempos não só as telefonistas, mas também a mais simples das auxiliares sabia conversar com os colegas como uma pessoa culta. Se havia cultura, tinha-se como ser culta.

E as telefonistas, principalmente, tornavam-se peças fundamentais da equipe de trabalho. Eu lembro da dona Cida, que se aposentou telefonista. Conhecia todos os setores da empresa em que trabalhava, era colega, era parceira, era solidária. Foi e sempre será uma excelente telefonista, onde quer que esteja. Parabéns pelo 29 de junho.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Verdade - Leve, solto e feliz

Desembarquei do Metropolitana lá pelas dezesseis e pouquinho e percebi pela reação das pessoas que o Brasil já vencia o Chile. Subi a Benjamin Constant a pé, estava disposto a registrar o momento. Só um salão de beleza aberto. O resto com as portas descidas.

Três quarteirões adiante mais gritos de gol, mais rojões. Confirmei com torcedores: dois a zero. Cheguei em casa no intervalo do primeiro para o segundo tempos. Assisti o terceiro gol. Depois os lances, os comentários, as reportagens e etecetera.

Não pelo placar elástico, que talvez tenha sido uma consequência de um estado de espírito diferente no time de Dunga. O futebol praticado ainda foi aquém do que se espera de uma equipe com tantos talentos. Mas não houve carranca.

Se o Brasil encarar a Holanda com esse astral será mais fácil sair do campo sexta-feira com um resultado positivo. É claro, tem que ter muito futebol. Jogadores o Dunga tem.

Precisa só entrar um time pé no chão que saiba valorizar os seus méritos sem menosprezar os adversários. Parece que o elenco brasileiro está chegando nisso, conforme se percebe nas entrevistas. Ganha o futebol, pois com consciência, essa rapaziada joga e muito bem. Humildade é um grande indício de consciência.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Crônica - Sem tempo para ver um empate

Andei preguiçosamente pelo Calçadão de Londrina durante o segundo tempo de Brasil e Portugal, aquele jogo que terminou em zero a zero não por mérito das duas defesas, mas por fracasso daquela linha para frente. Ou as zagas também falharam? Será que nestes times não tinha zagueiro marcador nesta sexta-feira? Em partidas anteriores eles, no mínimo, aumentaram a vantagem no placar, quando não salvaram a pátria.

As lojas desceram suas portas. As farmácias uniram o útil ao agradável. Abertas, reuniram os funcionários na entrada, diante dos aparelhos de tevê, e aproveitaram para aumentar as vendas recebendo fregueses.

Vi pelo menos dois catadores de papéis durante o percurso, que foi muito demorado. Aliás, tão longo quanto os 45 minutos do segundo tempo, que pareciam não acabar a cada tentativa da seleção portuguesa descer para a meta defendida pelos brasileiros.

Com seus enormes carrinhos eles não perderam tempo. Cataram, amontoaram e seguiram adianta, sem ligar para Brasil e nem Portugal. Ganharam o dia trabalhando duro enquanto boa parte do país parou com os olhos grudados na tela da televisão, perseguindo a bola que não chegou ao gol adversário.

E daí? Futebol é uma caixinha de surpresa, diziam no passado os comentaristas do esporte. Um dia a gente ganha, noutro dia a gente perde. E de vez em quando a gente empata e continua na jogada, enganando o nosso ego.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Crônica - Informalidade dura e cobiçada

A estátua viva tem nos braços uma boneca que imita uma criança. A estátua, que é viva, imita uma santa. A estátua, que vive, pede a atenção das pessoas, por isso é uma estátua viva com uma boneca nos braços.

O sanfoneiro imita que sabe tocar uma canção que só conhece a metade. O sanfoneiro, que é bom imitador, toca uma música pela metade. O sanfoneiro toca outras metades de outras canções para ver se a caixa de sapatos colocada aos seus pés tem o fundo coberto de moedas atiradas por quem passa e não percebe que o sanfoneiro é bom até a metade.

O vendedor de líquido milagroso vende a cura para tudo o que é nome de doença. O vendedor de milagre diz que seu produto é bom para alergia. O vendedor de cura prometge aliviar inchaço. O vendedor só não tem remédio para ficar rico de modo a não ter que vender o que não pode curar a doença que faz os que procuram milagres a comprarem promessas em vidros, em cédulas eleitorais, em anúncios políticos e em outros frascos descartáveis.

Informalidades. Filhas da crise e do desemprego, madrastas dos excluídos. Duras para quem se vê obrigado a se submeter. Cobiçadas pelos profissionais do vamos ver no que dá, dentre eles aqueles que sobem nos palanques e prometem milagres para tornar a informalidade menos informal. Como se isso resolvesse...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Crônica - Personalidade plena

Lá pelo início da carreira, repórter iniciante da Folha de Londrina - daqueles que os mais velhos chamam de foca -, recebi uma pauta desafiadora: um evento sobre planejamento familiar.

Entenda: desafiadora porque repórter experiente faz cara feia quando é designado para determinadas coberturas. E evento é aquilo que se acompanha, não se investiga, não se fuça. A não ser que o profissional de jornalismo saia da pauta e procure, talvez na esquina próxima, um fato real que tenha a ver com o que é discutido lá dentro.

Nesse evento que fui designado veio um médico brasileiro lá do Nordeste, muito conceituado no Brasil e no exterior. Tremi. O que fazer diante de uma sumidade? E se eu não souber fazer as perguntas certas? E se o cara perceber a minha insegurança?

Telefonei para os organizadores e busquei o maior número de informações sobre o médico. Indaguei sobre os projetos que ele desenvolvia, a especialização e, aquela pergunta básica: por que ele é tão importante em sua especialidade?

Também com os organizadores consegui uma exclusiva. Cheguei meia hora antes e me estatelei num sofá do hotel onde seria realizado o evento. O médico foi pontual. Alto, magro e metido num terno preto, ele sentou-se a minha frente. Fomos apresentados e dali não tive dúvidas que estava diante da oportunidade de produzir uma boa matéria.

Sabe por que? A modéstia, a educação, a simplicidade daquele cara eram tão perceptíveis quanto o conhecimento que ele tinha em sua especialidade. Tratei com ele de um tema complexo, polêmico, muito importante. Me senti seguro no momento de fazer as perguntas e de escrever. Consegui colocar no papel num assunto científico de um jeito que o mais simples leitor pudesse entender.

Depois da entrevista, antes dele se dirigir à sala de reuniões, conversamos rapidamente sobre outros assuntos. O ombro do terno dele descia até pedaço dos braços. Quando cruzou as pernas vi nos pés daquele ilustre profissional um par de Vulcabrás. E me senti muito mais à vontade.

Voltei para a redação com a firme determinação de escrever um texto claro, objetivo, correto nas informações e acessível para todos. Aquele cara merecia ser mostrado tanto quanto os projetos que ele desenvolvia e as causas que ele defendia.

Eu consegui. E aprendi a escrever de um jeito simples, sem vícios, sem frescuras, sem esnobismo. Aprendi também a ser modesto e simples, a andar de acordo com as minhas capacidades, inclusive no jeito de vestir. Aprendi, enfim, a ser um jornalista.